A habitual longa lista de inscritos das 24 Horas TT Vila de Fronteira compareceu uma vez mais para a festa do fim campeonato, abrilhantada este ano pela presença de um carro da X-Raid.
Este ano, o clima ajudou de uma forma inesperada, sem chuva nem frio e apesar de seco,  mas também sem pó, permitido que a prova fosse particularmente bem disputada sem causar grandes danos entre a caravana.
As sucessivas trocas de posições sucederam-se a um ritmo frenético, desde a liderança até aos lugares secundários, com a corrida a ter um final dramático e com o qual ninguém contava.

A ENVOLVENTE:

Tudo começou em 1998, ano da realização da primeira edição das 24 Horas de Todo o Terreno Vila de Fronteira. Desde então, a simpática vila do Alto Alentejo, tem recebido ininterruptamente este evento que mais do que uma prova de resistência, se assumiu como a grande festa de encerramento da temporada desportiva.

O espirito das 24 Horas de Todo o Terreno é significativamente diferente das outras provas de todo o terreno disputadas em Portugal e até no estrangeiro, indo muito além das óbvias diferenças do conceito desportivo. As equipas, sejam elas grandes ou pequenas são atraídas pelo desafio desportivo, mas sobretudo pelo ambiente desta corrida, em que mais do que adversários aqui encontram muitos amigos para um fim-de-semana de festa onde por acaso até acontece uma corrida de resistência. São muitos os casos em que as equipas são formadas por pilotos que ao longo da temporada foram rivais nas provas do Campeonato Nacional, outros há em que o grupo de condutores é composto por pessoas que habitualmente não conduzem nas corridas, sejam eles mecânicos, familiares dos pilotos ou patrocinadores. Para muitos destes participantes esta é mesmo a única prova que fazem durante todo o ano.



Por trás do sucesso desta competição estará também em grande parte o seu formato que permite que mesmo as equipas mais pequenas ou compostas apenas por fãs possam realizar o seu sonho de competir numa prova ao lado dos maiores nomes da modalidade. A possibilidade de existirem vários condutores para repartir a condução durante as 24 longas horas que dura a corrida permite que se repartam também os custos de uma participação, aliviando um pouco o esforço para estarem presentes.

O parque automóvel presente têm também uma característica muito especial: A variedade das viaturas usadas.  O regulamento permite que se inscrevam desde as máquinas mais potentes e evoluídas que existem na modalidade até a viaturas que não se inserem nos "padrões normais" do todo o terreno de competição dos dias de hoje mas que encerram em si muito do que foi o espirito algo aventureiro dos primeiros anos do todo o terreno.  Esta 20ª edição é um caso emblemático das diferenças que podem existir entre viaturas participantes, em que pela primeira vez um Mini All4 Racing (um mais carros de todo o terreno mais evoluidos) fabricado pela X-Raid partilhou a pista com a Peugeot 504 uma das viaturas mais emblemáticas desta prova.  Entre um e outro existe uma variedade muito rara de viaturas passando pelas habituais pick-up, jipes 4x4, pelos invulgares protótipos estrangeiros e as suas 1001 formas, e claro pelas máquinas mais simples da classe da "504", como o caso de um Renault Super 5 ou dos Datsun.

Comum a todos, o desafio e a diversão, mesmo nas equipas mais lentas. Na frente luta-se pelos primeiros lugares da geral, com os adversários à procura do mais pequeno deslize para poderem ultrapassar. Nas boxes, sempre que há um problema, os mecânicos fazem tudo quanto podem para que o carro regresse á pista o mais rapidamente possível. Mais para baixo na tabela poder-se-á pensar que é diferente, mas não: tudo rigorosamente igual: Luta-se pelos lugares na classe, por um objetivo, sempre com uma concorrência feroz e atenta. Nos mecânicos existe exatamente o mesmo empenho que nos das equipas de topo, apenas as soluções encontradas os problemas são um pouco diferente.

Nas primeiras edições das "24 Horas" esta era uma festa praticamente Portuguesa, mas que a dado momento chamou a atenção dos estrangeiros, sobretudo dos Franceses, os grandes especialistas da modalidade, fazendo crescer em todos os aspetos esta prova e trazendo até nós protótipos extraordinariamente rápidos e eficazes e que os têm ajudado a dominar os acontecimentos desde então.  Porém, gradualmente temos vindo a assistir a participações cada vez mais numerosas de equipas compostas por Portugueses e estrangeiros,  permitindo a alguns nacionais fazerem pelo menos parte das equipas que lutam pela vitória na geral.
 
 
O FACTOR "CLIMA":
As 24 Horas de Todo o Terreno, por serem um evento que é realizado no final do outono, acabam sempre por serem muito afetadas pelo clima, com um impacto notório no desenrolar da corrida.  Os principais efeitos do clima, seja ele seco ou molhado, fazem-se sentir na pista que tem que aguentar os milhares de passagens das largas dezenas de concorrentes. Em anos secos a pista torna-se muito poeirenta, dificultando a condução e as ultrapassagens.  Em anos molhados a lama e as dificuldades de tração por causa do piso escorregadio em alguns pontos do traçado são os principais problemas.  A pista acaba por isso por se degradar de forma diferente consoante o ano e talvez o ponto comum seja mesmo o começarem a aparecer as pedras e buracos que causam muitos dissabores, sobretudo a nível dos furos e dos problemas de suspensão.
2017 foi um ano atípico, sem nada destes problemas, mesmo sendo um ano particularmente seco, com o Alentejo a sofrer e muito os efeitos da ausência de chuva que se prolonga há meses.  Nos dia antes da corrida choveu um pouco, o suficiente para ajudar a compactar o piso e quase anular por completo o pó.  As passagens dos concorrentes deram o toque final, compactado a pista ao ponto de em alguns locais mais parecer alcatrão capaz de fazer inveja a muitas estradas nacionais.
Com bom piso, sem pó, sem chuva e com um tempo ameno generalidade das equipas pode dar muitas voltas á pista, e mesmo aqueles que mais costumam sofrer, tiveram este ano uma prova mais calma, disfrutando em pleno da condução dos seus carros.

Na imagem, umas das curvas que costuma se degradar bastante e que em 2017 parecia quase de asfalto
 
A ESTREIA DA X-RAID EM FRONTEIRA
Contar-se-ão pelos dedos de uma mão as vezes em que Fronteira recebeu equipas com estatuto de pertencerem ao mundial. Claro que já muitos pilotos passaram pela prova, e claro que também já muitos carros bastante competitivos, mas teremos que recuar até à 2003, altura em que Mistubishi esteve presente, com uma Mitsubishi L200 Strakar, na altura pilotada por Carlos Sousa, Stephane Peterhansel, Miki Biasion e Miguel Barbosa. 
Este ano esteve pela primeira vez em Fronteira a equipa Alemã X-Raid, com um Mini All4 Racing conduzido por um quarteto de pilotos Italianos composto por Michele de Nora, Michele e Carlo Cinotto e Paolo Bachella. A formação italiana optou por alugar o Mini da equipa alemã apostando na fiabilidade comprovada deste carro.
É comum nas equipas dizerem que "vêm" para se divertir, mas obviamente que começando logo pela escolha do carro, existia um objetivo no que há classificação dizia respeito. Michele de Nora assumiu antes do arranque que queria terminar dentro dos 5 primeiros.
A participação até começou da melhor maneira, com a formação do Mini a vencer os treinos livres.  Depois nos treinos cronometrados os "especialistas" de Fronteira fizeram valer os seus pergaminhos, e o Mini caiu para sétimo. 
Durante toda a corrida estiveram sempre no grupo dos mais rápidos, e em abono da verdade, dos mais espetaculares também com a equipa a conduzir o Mini de uma forma absolutamente impressionante.  Um atraso a meio da corrida fez a equipa descer na classificação, e por pouco que iam falhando o objetivo de ficarem nos cinco primeiros, mas as 24 Horas TT guardam surpresas até mesmo ao fim, e problemas á sua frente permitiram mesmo superar aquilo a que se tinham proposto, alcançando o terceiro lugar final.
Por parte dos dono do carro, a informação é de que não foi feita nenhuma alteração à mecânica do Mini All4 Racing, apenas as revisões habituais. A reconhecida fiabilidade do Mini apenas estremeceu quando foram obrigados trocar a caixa de velocidades, mas ainda assim permitiu à equipa obter um resultado excecional nesta sua participação, e quem sabe, ter aberto as portas para que mais equipas tragam carros do mundial até Fronteira.



 
CASA CHEIA PARA A 20ª EDIÇÃO DAS 24 HORAS TT VILA DE FRONTEIRA
Inscreveram-se para participar nas 24 Horas TT Vila de Fronteira mais de 80 equipas, número que apesar não bater o recorde de participações foi suficiente para encher as boxes e a pista, cumprindo-se na plenitude a tradição da grande festa do fim do ano.
Para além da "estrela" que era o Mini, a lista estava repleta de nomes que são presença regular em Fronteira, incluindo a habitual "invasão Francesa" que traz até Portugal os seus impressionantes carros. 
A equipa liderada por Mário Andrade, múltipla vencedora desta prova era uma das principais favoritas, com Mário e Alexandre Andrade, Cédric Duple, Yann Morize e Luís Ribeiro ao volante do seu Proto. Pierre Marie Lauilhe, Louis Lauilhe e Stéphane Barbry formavam equipa para tentar repetir o triunfo de 2015. 
Do lado dos Portuguese, o grosso das atenções no que diz respeito à luta pelo primeiro lugar recaia sobre a equipa onde estava Ricardo Porém, que partilhava o carro com Pedro Grancha, Laurent Poletti e Basso Ronald.
Por entre a longa lista de inscritos muitos nomes conhecidos e muitos outros não tão conhecidos perfilavam-se para participar. A família "Santinho Mendes" com Santinho Mendes, os filhos José e Vítor Mendes e o neto António Santinho Mendes a dividirem a condução do Opel Tigra entre as 3 gerações.  César Sequeira foi outro piloto conhecido que trouxe a família, neste caso as suas duas filhas Tânia e Filipa para partilhar a condução da Nissan Navara. 
Peugeot 504, um dos icones desta corrida e favorita do público estava também presente, para mais um duelo de 24 horas com um lote de máquinas igualmente impressionante onde figuravam por exemplo Renault Super 5 e os 2 Datsun,  Não se deixe enganar pela modéstia aparente destes carros. Poderão até nem ser os mais rápidos, mas a dificuldade e desafio de os manter em prova é tão grande ou maior do que nas equipas da frente.
Duas equipas compostas só por senhoras também enfrentaram o desafio: A equipa n.º41 composta por Carina de Castro, Sónia Ferreira, Joana Cordeiro e Teresa Coelho em Nissan Navara, e a equipa n.º61 com Paula Marto, Otília Marto, Sílvia Reis e Sílvia Marto a repartirem a condução de um Suzuki Jimny.



 
EQUIPA TEMPO 24H FOI A GRANDE VENCEDORA EM FRONTEIRA.
Até que os pilotos vejam a bandeira de xadrez tudo é possível nas 24 horas TT.  Este ano as últimas horas da corrida foram particularmente surpreendentes e culminaram num resultado algo inesperado.
As condições da pista permitiram este ano que muitas equipas rodassem mais do que  é habitual, esquivando-se aos habituais problemas que vão surgindo nos carros derivado do desgaste natural das estradas, algo que não se verificou em 2017.  Por outro lado, o ritmo foi de um modo geral também mais alto, e mesmo os mais lentos andaram muito e rápido, já para não falar nas 118 voltas do vencedor.
O ritmo alucinante a que o grupo da frente imprimiu durante as primeira metade da corrida não deixava que as equipas darem o seu resultado por seguro. Aliás, também para o meio da tabela se discutiam posições e os pódios das classes, com muitas equipas pretendentes aos melhores lugares. A liderança da corrida foi sempre muito disputada  com várias equipas a passarem pelo primeiro lugar.  Após 12 horas de prova, na frente encontrava-se a equipa de Stephane Barbry, Pierre Lauilhe e Louis Lauilhe. Em segundo Mário Andrade e a sua equipa com o A.C. Nissan Proto e em terceiro a equipa de Paulo Marques, Alexandre Ré, José Pimenta e Thierry Charbonier todos com 57 voltas. Ainda com o mesmo número de voltas estava o Mini All4 Racing conduzido pelo quarteto de italianos liderado por Michelle de Nora.  Pouco depois a equipa do A.C. Nissan Proto número 22 assumiria o comando, onde se iria manter até quase ao final da corrida.
A uma hora do final da corrida começou o volte face na liderança. Thierry Charbonnier, Paulo Marques, Alexandre Ré e José Pimenta, na altura segundos classificados eram forçados a retirarem-se da prova devido a uma avaria mecânica no Proto MMP. Pouco depois, a equipa de Mário Andrade que liderava desde pouco depois da 12ª hora via a embraiagem do A.C. Nissan Proto ditar a paragem nas boxes, não dando á equipa qualquer hipótese de reparação antes do final da corrida forçando ao abandono. Para se perceber bem o azar, esta equipa deu 117 voltas á pista, enquanto os vencedores deram 118. Porém o regulamento diz que para uma equipa se classificar tem que cruzar a linha de meta pelos seus próprios meios, algo que foi literalmente impossível de fazer.
Mas se estas duas formações ficaram com um sabor muito amargo desta sua participação nas 24 Horas TT, já a equipa Tempo 24H que veio da Letónia ficou com a sensação exatamente oposta.  Depois de várias participações, a equipa composta por Igor Skoks, Rudolfs Skoks e Arvis Pikis  conseguiu finalmente o triunfo em Portugal.  Fãs desta prova e profundos conhecedores da mesma,  a sua estratégia aliou rapidez quanto baste e uma fiabilidade a toda à prova do Mitsubishi Pajero que segundo a equipa não teve qualquer problema.

“Conhecemos bem esta competição. Eu já participei sete vezes e a equipa já a fez por treze ocasiões. Fizemos um excelente trabalho prévio e a tática funcionou. Já tínhamos conseguido o segundo e o terceiro lugares, mas ganhar é ganhar! Foi uma corrida incrível. A uma hora do final não acreditava que fosse possível vencer! O nosso carro esteve sempre a 100 por cento. Não tivemos nenhum problema mecânico e a vitória é justa, apesar do azar do nosso adversário”, disse Rudolfs Skoks à organização no final da prova.



O segundo lugar do pódio ficou para os Franceses Barbry, Pierre e Louis Lauilhe em Proto Sadev Oryx e o terceiro lugar ficou para os Italianos Michele de Nora, Michelle e Carlo Cinotto e Paolo Bachella em Mini All4 Racing.
Em quarto terminou outra equipa vinda de França: O trio composto por Andre Bastet, Richard Bastet e George Da Cruz com um invulgar Proto Pro-Pulsion Sprinbok
A primeira equipa Portuguesa aparece apenas em quinto: Victor Conceição, Nuno Pires e Tiago Rodrigues conseguiram dar 110 voltas á pista com a sua Nissan Navara.
Nos T2 a equipa de Rómulo Branco foi uma das principais dominadoras, mas a suspensão da Nissan Navara não deixou o quarteto composto por Rómulo Branco , Jorge Silva, Rui Farinha e Gonçalo Branco vencer na categoria atrasando-os irremediavelmente e deixando a vitória ficar nas mãos da equipa composta por Carlos Faustino, Hélder Cordeiro, Rui Pinho, Pedro Lopes e Jorge Caetano que conduziam um Nissan Pathfinder.

Na Promoção B, onde milita a Peugeot 504 que conta com o apoio da Rally-Raid Network e do Todoterreno.pt , o vencedor foi o BMW 325 conduzido por Nuno Carujo, João Amante, Joaquim Matos e Luis Maximiano com 89 voltas cumpridas, o que deu ainda para terminar no 19º lugar da geral. 
O "Team Peugeot 504", apoiado pelo Todoterreno.pt / Rally-Raid Network terminou em 4º da sua classe e 40º da geral com 68 voltas realizadas, batendo assim o seu próprio recorde de voltas e quilómetros percorridas numa edição das 24 Horas TT.




Poderá ver estas e outras imagens das 24 Horas TT Vila de Fronteira na nossa galeria, disponivel aqui.